Há filmes que, ao terminar de vê-los, deixam uma dúvida: será que gostei? Será que é só isso, ou eu não entendi o filme? E na dúvida, acabamos deixando o filme ser processado no nosso inconsciente, enquanto vamos fazendo e vivendo outras coisas.
Este foi o caso de Lake Tahoe (Fernando Eimbcke, 2008). Teve algum ‘wow’? Não. Mas há algo de especial no andar da personagem principal, Juan, um adolescente em conflito, que vai e volta no aparente vazio do cenário, um vilarejo (ou bairro) que parece estar morto ou dormir, tamanha a falta de movimento e vida.
Na tentativa de solucionar o problema com o carro, que o adolescente bate na abertura do filme, Juan cruza a tela da direita para a esquerda e vice-versa, em toda sua extensão, e nesse movimentar, ele encontra com personagens bizarras. Lake Tahoe é um filme lento, com uma narrativa sem reviravoltas, cujo desfecho não oferece soluções, mas explica o movimentar do filme e da personagem em seus quadros quase que estáticos. Não indicaria o filme, enfaticamente, mas fiquei muito feliz por tê-lo visto, e vira e mexe ao pensar nele, tenho uma boa surpresa.
Por que é que homem no Brasil (uma parte deles) urina na rua sem a menor cerimônia? É impressão minha ou realmente as pessoas (do sexo masculino) estão urinando em público mais facilmente do que o faziam há uns dez anos atrás?
Andei pensando se essa coisa de urinar em público se dá em função da falta de banheiros públicos… mas aí, me lembrei que normalmente não vemos mulheres abaixando a calcinha e se agachando nos canteiros. Uma questão de anatomia? Tenho a impressão de que a bexiga masculina é maior que a feminina. Acho que isso não vem muito ao caso, o fato é que não é raro vermos um homem de frente para uma árvore ou poste urinando, nesse caso, talvez seja melhor dizer mijando. O que normalmente acho curioso é que não sabemos bem porque resolveram usar a árvore: para ficarem meio que protegidos e não serem vistos? Ao que tudo indica, não, pois é só mudar um pouco de ângulo e vemos absolutamente tudo. Estava num ônibus na Rio Branco, umas 3 da tarde, quando vejo o cidadão virado para a árvore, isto é, de costas para a calçada, mas de frente para a avenida, deu para ver tudo, e acredite-me eu não estava querendo ver nada. Parece coisa de cachorro.
Num outro dia, estava passando pela Praia de Botafogo, quando vi no centro de um dos canteiros, um homem em pé, parado e dele saia um chafariz invertido… a cena chamou a atenção. O homem estava parado, urinando no meio do canteiro. Se minha primeira reação foi de recriminar, após pensar um pouco comecei a achar que: já que vai mijar na rua, é melhor que seja assim. Ver que a pessoa está urinando, nós normalmente vemos, o pênis também não é nenhum segredo, assim, pelo menos, não se deixa o cheiro de urina horrível no meio da rua que, aliás, é insuportável em certas partes do centro da cidade (É bem verdade, que alguns moradores de rua circulam por aqueles canteiros…). Este senhor, pelo menos, ficou menos parecido com um cachorro.
Ontem, estava passando ali pela Niemayer quando vi um banheiro público, na verdade, parecia mais um mictório. Na hora, pensei: pelo menos aqui as pessoas devem usar esta cabinezinha, em vez de usar as árvores e postes, mas sinceramente, da maneira como estamos, não sei se alguns homens se dariam ao trabalho de andar alguns metros para urinar ali.
Perguntei a um amigo porque homens urinam na rua sem o menor pudor. Ele respondeu: “instinto de mamífero, só os que passaram da fase animalesca têm pudor”. Realmente, olhando-os diante das árvores, parecem cachorros demarcando território… Tentei pensar como podemos mudar tal mentalidade: uma campanha em que se aumente o número de banheiros (mictórios) pela cidade, juntamente com um filmezinho em que um homem sai para levar seu cachorro para urinar, ele (cão) vai maluquinho cheirando tudo e urinando em diversos pontos, daí, aos poucos ele vai se transformando num homem… ou vice-versa… ou o dono sai urinando junto com o cão… sei lá… mas algo que faça uma clara relação entre o mijar na rua e os cachorros. A pergunta é, será que uma campanha surtiria algum efeito? Quero ser otimista e pensar que sim. Sei que temos muitos problemas para serem olhados e solucionados, e quando penso na população de rua, na Av. Presidente Vargas pouco antes das seis da manhã com as pessoas que dormem em suas calçadas, lembro-me que o urinar nas árvores está inserido num contexto sócio-cultural muito mais complicado que meu curto e superficial comentário aborda. Apesar de achar que tal realidade facilite nossa aceitação do fato, pois muitos deles já vivem em condições sub-humanas, não sei se isso de fato justifica por completo tal atitude tão ‘animalesca’, mesmo porque, não acho que seja apenas a população de rua que urine pelos postes da cidade. Há outros elementos culturais que levam as pessoas a urinarem na rua sem muito (ou menor constrangimento). Por isso, acho que juntamente com outras campanhas sociais, deveríamos ter também uma campanha que olhasse a questão dos mictórios públicos.
Apesar de o festival do Rio já ter acabado há quase um mês, ainda estou digerindo alguns de seus filmes e tentando criar coragem para postar os comentários.
Quando olhava o programa do festival ou ia para a bilheteria, estava sempre torcendo para ver um filme que fosse sensível e poético, algo que me tocasse muito. Este tipo de filme, contudo, não foi a maior parte do que vi no festival, por isso, adorei ainda mais quando fechei o festival com A Caixa de Pandora. O prazer aumenta por ter parado nele por acaso, pois havia marcado de ir ao cine com uma amiga que é mais atrasilda que eu e acabamos perdendo o filme que íamos ver.
Caixa de Pandora (Yesim Ustaoglu) é uma co-produção envolvendo a Turquia, França, Alemanha e Bélgica. O filme é um melodrama sobre três irmãos que, de repente, têm que enfrentar problemas/conflitos internos quando a mãe, com Alzheimer, se muda para Istambul para ficar com eles. Basicamente, não tem nada realmente novo na estrutura da estória que segue uma estrutura tradicional: os membros de uma família (normalmente irmãos) estão vivendo suas vidinhas, com seus problemas diários (cujas raízes, muitas vezes estão no passado), quando há uma crise que quebra suas rotinas, fazendo com que eles tenham que enfrentar, repensar problemas escondidos em suas partes mais íntimas, fantasmas, cuja presença, eles tentam negar ou simplesmente, nao pensar a respeito. Normalmente a crise é causada pela doença ou morte de um parente (pais, avós, filhos), de cuja responsabilidade ele(s) não pode(m) fugir. Na tentativa de se resolver a crise, ou o doente ou os membros da família se mudam para poder cuidar, tratar do doente ou da crise em si. É nesta mudança que o lodo é chacoalhado e que a sujeira sobe. Normalmente, nessas estórias, vemos alguns dos seguintes personagens: o filho que se parece mais com um dos pais e que por isso não se dá bem com ele/ela; há o outro filho que parece ser do agrado dos pais; há o rebelde; e muitas vezes também há um membro da família que pertence a uma outra geração, mas que vai conseguir se comunicar com as pessoas em crise, ou que tem algo a ensinar, ao mesmo tempo em que aprende sobre si e sobre a vida. Como em muitos filmes, quem menos se espera, mostra-se sábio e lúcido. No meio disso tudo, os personagens começam a descobrir que as coisas não são bem como eles as pintavam e acreditavam ser, e daí eles acabam repensando suas vidas e têm a chance de mudar a si mesmos ou não.

Esta é a estrutura de Caixa de Pandora, mas apesar de seguir a fórmula desse tipo de melodrama, o filme vai além de tal fórmula e é muito sensível. Ele não trata apenas das questões pessoais de cada um dos filhos, dando-lhes a chance de repensar suas próprias vidas através do que lhes é revelado, mas ele também trata da questão do mal de Alzheimer, do impacto da doença em quem a tem e na delicada questão de se retirar o idoso do seu ambiente e como isso é sentido por ele. O filme aborda a dificuldade de comunicação entre os membros da família, como nos isolamos, a distância que criamos ou que são criadas entre nós e os seres que amamos tanto, mas talvez tal distância seja nosso mecanismo de defesa na busca de nossos próprios espaços.
Há alguns aspectos do filme que merecem especial destaque. O encontro de gerações, apesar de meio clichê, é retratado de maneira bonita e tocante: os dois extremos, o novo e o velho, incompreendidos, cuja autonomia não lhes é permitida, buscam seus próprios espaços e nesta busca compreendem e aceitam um ao outro. As personagens são interessantes, principalmente a da mãe (com Alzheimer), que tanto em seus momentos de lucidez quanto de demência cutuca não apenas seus filhos, mas também o espectador.
Quanto ao fim do filme, sem contá-lo aqui, talvez surpreenda alguns espectadores, embora possa ser esperado por outros. Ele tem sua poesia, e nos deixa em suspenso em vários sentidos, não fechando, assim, a fórmula completamente (se bem que pode-se argumentar que, hoje em dia, isso já faz parte da fórmula).
Apesar de sugerir que A caixa de Pandora siga uma fórmula, não quero dizer que: 1) ele seja completamente enquadrado numa fórmula, e 2) que o fato de se seguir uma fórmula (ou parte dela) signifique, necessariamente, mediocridade. Yesim Ustaoglu, por exemplo, através de um ritmo um pouco mais pausado (longe de um Tarkovsky, claro); de personagens que têm profundidade com quem nos preocupamos e por quem torcemos; de paisagens lindas da Turquia; da perspectiva com que ela (Yesim Ustaoglu) trata a demência; e, finalmente, um final que não fornece uma resposta clara, mas nos dá espaço para questionar e dependendo do espectador pode até dar um nó na garganta transformam uma fórmula (ou parte dela) em algo diferente que nos toca e faz refletir, que diverte, e que comove.
Aproveitando que praticamente ninguém entra aqui, apenas, muito raramente, uns parcos amigos muito próximos, vou tentar postar um comentário solto, sem rédeas, sem filtros (o tanto quanto possível)… having in mind, simplesmente, que este é um espaço para eu não ter medo de errar. É bem verdade, que deveria estar postando algo um pouco melhor logo depois deste comentário, caso pela lei de Murphy alguém (mesmo um grande amigo) passe por aqui. Se alguém passar, fique preparado, está um pouco grotesco, não me preocupei com o ‘bom tom’ de nada e nem tentei ser coerente. Não espere uma pirâmide invertida, sou o oposto dela (não sei se por falta de competência ou excesso de personalidade). Se por acaso, você tiver chegado ao final deste parágrafo, e quiser apenas ler um comentário a mais sobre o filme de Carlos Saura Fados, vá para os últimos parágrafos.
Dos filmes de Carlos Saura, lembrava-me vagamente de Tango, e quando penso sobre este tenho a impressão de que o amo de paixão. Lembro-me da dança, que adoro! Mas não me lembro muito do filme em si, daí, não saber bem de onde vem esse sentimento de “amo de paixão”. Já vi outros filmes do Saura, mas sequer consigo me lembrar dos títulos, nem com a ajuda do IMDB… acho que vi Carmem. Tenho na memória uma estória desconexa, um cenário artificial, e em outros filmes: cores fortes, contrastadas e uma sensação de ‘paixão’.
Quanto à ida ao cine. Curti quase todo o processo, até o me molhar quase toda na volta por conta da chuva. Antes de ir ao cine, descobri um ‘Hot dog’ por R$ 0,99 quase em frente ao Espaço. Não resisto a uma barganha, tive, então, que parar para comprá-lo. E lá fui eu para o Espaço com meu Hot Dog, ‘Realland’, cheio de mostarda e ketchup e uma salsicha que prefiro não pensar muito a respeito. Se bem que estava bem gostosinho, e até agora estou bem; eles ganharam mais um freguês.
Ao entrar na sala do cinema, notei algo de diferente que não tenho notado há um certo tempo: havia dois casais no maior agarro. Adorei ver aquela coisa de adolescente com casais acima de 45 (um deles) e acima de 60 o outro. Não sei se: 1) sou eu que não tenho prestado muita atenção a casais se beijando… mas acho pouco provável que meu lado romântico incorrigível, que adora ver casais e curte manifestações de carinho em público, deixaria passar um casal se beijando. 2) se tenho ido a lugares onde as pessoas são discretas, ou onde não há muitos casais, ou se 3) na pior das hipóteses, as pessoas estão de fato mais discretas e, por isso, não vemos mais com tanta frequência manifestações de carinho. Lamento um pouco, por esta terceira opção, pois é tão gostoso um beijo antes de o filme começar, ou na rua, sem motivo algum.
Enfim, ao procurar meu lugar, para minha decepção descobri que estava ao lado do casal beijoqueiro-mor. Tenho que admitir que lamentei não poder dar vazão ao meu lado voyeur, e apenas curtir ver um casal apaixonado na minha frente… não daria para eu ficar olhando para o lado enquanto os dois se curtiam. É bem verdade, que logo que o filme começou, eu que normalmente sou bem tolerante com barulhinhos aqui e ali, pipoca, balinha, pequenos comentários, vi-me quase que pulando no pescoço do casal, já que eles não paravam de conversar. Minha vontade era falar para eles voltarem para a fase do agarro e ocuparem suas línguas com algo menos inconveniente que aquele sussurrar todo. Falando sério, ‘sussurro’ é estar amenizando a altura com que o homem estava pavoneando seus conhecimentos para a mulher (não vou chamá-los de senhor e senhora.). Lá pelas tantas, depois daqueles “shhhhhhh” que eu, particularmente, odeio, mas que mo vi fazendo, sem surtir o menor efeito no casal, resolvi cutucar o homem, e pedir para eles pegarem mais leve. Tem mais nessa estória, mas quero falar do filme agora.
Assim que comecei a ver o filme, pensei: o que é que estou fazendo aqui? Mas quando eu relaxei para o fato de estar em um espetáculo de fado, dança e imagem (não o vejo como um simples musical), fui gradativamente me encantando com ele. A abertura de Fados é muito interessante, com a sombra de dançarinos passando em frente de um telão onde é projetada a imagem de pessoas caminhando numa rua. Apesar de eu não gostar da primeira coreografia, uma espécie de carnavalização (estou usando o termo de maneira bem solta aqui) vazia, no sentido que parece apresentá-la como que exótica, o restante do filme é ótimo, arrebatador. Ele é regado com performances maravilhosas (pelo menos para meus ouvidos nada experts), e várias coreografias muito bonitas (há algumas que achei fracas).
Fados acaba por ser um filme não apenas sobre o fado, mas uma certa homenagem ao mundo lusófono, com músicos de vários países, inclusive do Brasil. Foi ótima a maneira como se mesclou o fado às músicas brasileiras, africanas e espanholas, numa espécie de um sincretismo musical. Sendo, talvez, uma menção da música das colônias na música portuguesa. Joe Bendel refere-se ao fado como um possível “reverse cultural colonialism” .
Para quem não conhece muito de fado, como é o meu caso, pode-se ficar meio que no ar, pensando: mas quem é esse músico? Para, além disso, uma maior familiaridade com ritmos brasileiros também pode ajudar em alguns dos clips, como por exemplo, no caso do Lundu(m). Já que estou falando do Brasil, de repente, vejo Caetano, lindo, com seu violão cantando um fado delicado. Eu já sabia que ele ia cantar no filme, mas não havia imaginado que ele fosse tentar cantar com sotaque português europeu. Imagino que ele tenha seus motivos para tal escolha, mas, eu particularmente, acho que ficaria melhor cantar com seu próprio sotaque caetano. O fado pode ser cantado também com o português brasileiro e suas silabas finais bem pronunciadas. Não se trata aqui de nacionalismo, mas da idéia de que podemos usar, incorporar o outro mantendo o que somos… é bem verdade que com certeza Caetano tentou um sotaque português e continuou mantendo sua brasilidade. Mas para se cantar um frevo, não é preciso ter um sotaque pernambucano e o mesmo serve para o fado. De qualquer maneira, antes que possa ter algum mal entendido, eu adoro o som do português europeu (de alguns lugares de Portugal), acho muito bonito.
Logo depois de Caetano, veio o Chico. Ele começou cantando Grândola, Vila Morena (de Zeca Afonso) que ‘fades’ com Fado Tropical, tendo-se ao fundo imagens de arquivo da Revolução dos Cravos. Muito bonito. Vários fadistas merecem atenção especial, como por exemplo, Mariza, mas já me prolonguei mais do que havia planejado. A mistura do fado com rap também ficou ótima. Para finalizar, eu gostaria de chamar especial atenção aqui para a Casa de Fados, que praticamente fecha o filme com chave de ouro.
A maior parte dos fados de que me lembrava eram metafados, assim sendo, foi ótimo ouvir vários que não cantam apenas o fado em si. No meio de melodia tão melancólica, com letras que cantam diferentes dores, foi difícil controlar e, de repente, vi-me chorando no cinema. É impressionante como o choro do fado pode nos tocar, e sua dor pode trazer à tona nossas próprias dores, acumuladas e silenciadas pela correria e demandas da vida. Definitivamente, este é um filme que vale a pena ver e ter, principalmente, se você não estiver com medo de trazer à tona dores alheias e também as suas mesmas.
Diante das perguntas que geralmente batem quando começo a escrever sobre um filme: por onde começar, ou como descrevê-lo?, resolvi, no caso de Doce Perfume (Andrzej Wajda 2009), começar pelo aspecto que primeiro me arrebatou, que foi a própria matéria prima do cinema: a imagem. A abertura do filme, as águas de um rio, lembrou-me da abertura de um dos filmes de Tarkovsky, apesar de o rio e o córrego de Tarkovsky serem muito diferentes. Logo em seguida, vemo-nos diante desse quarto (o da foto abaixo, infelizmente um pouco distorcido para caber aqui)… pura poesia. Profundidade de campo, iluminação, composição do quadro, cores, enquadramento, cada detalhe parece arrematar um perfeito acabamento.

Para o desconforto dos olhos e mentes acostumados à ação, à rápida troca de imagens, em função de uma edição quase frenética, Wajda nos deixa diante de sua ‘pintura’ quase que estática, que é explorada por nosso olhar, enquanto a atriz/personagem movimenta-se nela. É nesse ritmo mais lento, em quadros cuidadosamente esculpidos que vemos a estória do filme se desenrolar, ou melhor, que olhamos as personagens se movimentarem nele.
Doce perfume é uma adaptação de um conto do escritor polonês J. Iwaszkiewics. O filme é apresentado em dois formatos diferentes: ficção e documentário, os quais se intercalam do começo ao fim. A ficção narra a estória de Marta, a esposa de um médico, que se encanta por um jovem muito mais novo que ela, e por quem ela deixa crescer sentimentos que não parecem claros; do marido de Marta que opta por não lhe contar que ela está num estágio terminal de uma doença; e do jovem por quem Marta se interessa. A parte ficcional fala ainda sobre os fantasmas que rodeiam esse casal; e sobre questões da juventude. Já o documentário apresenta o relato da atriz Krystyna Janda sobre a morte de seu marido, que adiou as filmagens do filme. Cada uma dessas duas partes tem seu próprio tom. A história da morte do marido de Krystyna Janda, é dominada por cores mais escuras e contrastes mais fortes e é filmada praticamente toda no interior do quarto. Já a ficção, que usa principalmente cenas exteriores, principalmente, quando Marta está sozinha ou com o rapaz, é dominada por tons pastéis.

As estórias vão se desenvolvendo nesse movimentar entre os relatos de Krystyna Janda e a vida de Marta, seu marido e o jovem. Pouco se vê sobre a doença de Marta, vivenciamos um período curto de sua vida, alguns dias, no final da primavera e começo do verão, em que ela divide seu tempo entre cuidar da casa e do marido e conhecer o jovem rapaz. De repente, o filme acaba. Quando eu menos esperava, os créditos finais começaram a aparecer na tela.
Se, inicialmente, o final do filme pareceu-me abrupto, sem prepararar o espectador para uma possível término, para uma conclusão, após algumas considerações sobre Doce Perfume, tal fim passou a fazer sentido. O filme, para mim, não é tanto sobre a vidinha de Marta e seus sentimentos não muito claros pelo jovem rapaz, os problemas do casal, ou os problemas da juventude, mas, Doce Perfume, na verdade, é sobre a nossa relação com a morte, é sobre a morte em si. Soltando minha imaginação ainda mais nesta análise, eu sugeriria que a consciência da chegada da morte, como no caso de Krystyna Janda (e apesar de menos evidente, também no caso do marido de Marta) pode ser sugerida, entre outras coisas, pelo uso das cores e contrastes mais fortes. Já nas partes de Marta, que não tem consciência que tem ainda apenas alguns meses de vida, há o predomínio de cores mais suaves e tons pastéis.
Através da estória de Marta, das pessoas a sua volta e dos relatos de Krystyna Janda, o filme nos fala de como vivemos as nossas vidas, nosso dia-a-dia, nossos fantasmas enquanto caminhamos consciente ou inconscientemente em direção à morte, assim como acompanhamos, consciente ou inconscientemente quem está perto de nós no seu caminhar para a morte. Morte, esta, que não chega, necessariamente, na ordem que esperamos, contudo, esperada ou não, ela chega e isso pode acontecer de maneira abrupta (mesmo quando estamos aguardando por ela, como no caso de um paciente terminal), sem permitir que nos preparemos para uma conclusão, para um arremate.
Ao olhar o programa do festival, estava procurando filmes de certos países, de preferência, que tivessem uma certa doçura, poesia. Daí, é fácil imaginar como rejeitei, de cara, Retour en Normandie (parte da mostra: Homenagem a ARTE), quando li na sinopse que se trata de um filme sobre um outro filme sobre matricídio. Felizmente, minha memória fraca (não me lembrava do título do filme quando cheguei ao cinema), e minha romântica ideia de deixar para comprar o ingresso na bilheteria pouco antes de o filme começar fez com que eu acidentalmente aterrissasse justamente em tal filme. Ao entrar na sala e descobrir de que filme se tratava, ensaiei uma saída, mas resolvi ficar. A sala, que não estava muito cheia, ficou ainda mais vazia quando aproximadamente um terço da plateia saiu depois de uns 20 minutos de filme. Bem, o filme:
De volta a Normandia (Retour en Normandie) é um documentário de Nicolas Philibert, supostamente sobre o filme de René Allio: “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”. Este filme é baseado no livro homônimo, que foi o resultado da investigação de um matricídio que aconteceu na Normadia em 1935, quando Pierre Rivière matou a mãe, a irmã e o irmão mais novo e, depois já em cárcere, escreveu um relato detalhado do motivo que o levou a cometer tal crime, do crime em si e de sua reação após tê-lo cometido. Michel Foucault foi um dos colaboradores na pesquisa e no livro. Allio não usou atores profissionais em seu filme, ele usou basicamente pessoas da própria região onde o crime fora cometido para atuar deste os papéis principais até os figurantes.
De volta à Normandia é um documentário que não oferece um olhar focado e objetivo sobre o filme de Allio ou um assunto específico. Através da tecelagem de relatos dos camponeses que atuaram como atores no filme, do dia-a-dia dessas pessoas e suas atividades (30 anos após a filmagem de Eu, Pierre Rivière), de excertos do filme de Allio, fotografias da filmagem do filme e objetos pessoais de Allio, Nicolas Philibert constrói um filme que fala sobre essas pessoas que, de repente, sem pedir para serem atores, se viram em tal papel. Philibert quer saber sobre suas vidas e o significado que o filme e a sua filmagem tiveram para eles e em suas vidas. O filme é também sobre o fazer de Eu, Pierre Rivière, sobre Allio e sobre aspectos da Normandia. Ao apresentar todos esses diferentes elementos, ele aborda diferentes assuntos, como por exemplo, a loucura, ponto central no julgamento de Pierre Rivière.
Apesar de o filme perder o ritmo em certos momentos e se arrastar um pouco, Retorno a Normandia tem uma narrativa que cresce com o decorrer do filme, e as informações vão sendo acrescentadas aos poucos, num movimento que tenta criar uma certa expectativa e curiosidade. Enquanto a câmera passeia por diferentes temas, em alguns momentos, tal movimento é quase que pendular, deixando o espectador meio que perdido e encantado, e pensando: aonde é que isso vai chegar? Este crescendo, ou a consciência do movimentar do diretor se dá mais claramente já para o final do filme, que oferece uma espécie de clímax.
O filme é uma mistura de momentos doces e o simples relato do dia a dia, com momentos violentos, fornecidos tanto por cenas do filme de Allio, como pela descrição de algumas atividades dos fazendeiros. Dentre as atividades dos ex-atores, atenção especial é dada à criação de porcos, que é retratada de uma maneira bem dura, inclusive mostrando em detalhes o abate de um porco. Pela maneira rudimentar com que o animal é morto, parece melhor dizer: o carnear do porco. Tal ênfase faz pensar numa possível analogia com o crime cometido por Pierre Rivière.
Quanto aos relatos das pessoas, apesar de não se ver Philibert entrevistando os ex-atores, sua presença é clara, não apenas devido à narração na primeira pessoa, mas principalmente, pelo fato de os entrevistados se dirigirem claramente a ele, conversando com ele. As perguntas, comentários, ou qualquer orientação fornecida aos entrevistados é omitida, não deixando claro o que é que o diretor pediu a eles, que tanto seus relatos estão sendo conduzidos. Tem-se, contudo, a impressão de que lhes é dada bastante liberdade no que falar, e isso talvez seja sugerido através de um aspecto que me agradou muito, que foi o fato de eles terem deixado, no filme, o momento anterior ao se começar a falar, quando as pessoas não sabem se já podem começar a falar e o que falar, meio que o vazio diante da tela branca. Tal recurso parece-me, também, uma maneira de causar um certo estranhamento também no espectador, e desconstruir um pouco uma possível transparência que uma edição mais enxuta, teria sugerido. Contra este meu argumento, há o fato de não me lembrar de outros elementos no filme, que sugiram a intenção de uma semelhante desconstrução. De qualquer, maneira, tal estranhamento (e eu diria até um certo constrangimento) é dividido com o espectador, que logo após os segundo de silêncio e mal-estar, é recompensado com a descontração e naturalidade com que a maior parte dos participantes passa a se dirigir à câmera e a Philibert.
Se eu, num primeiro momento, rejeitei o filme em função de sua sinopse, fico feliz por tê-lo escolhido acidentalmente, em função de um título que me soou nostálgico, pois ele o é… a nostalgia dos ex-atores e do próprio Philibert. Retour en Normadie é muito mais que um filme sobre outro filme, ele é o errar de Philibert por diferentes cenários e conversas, e nesse caminhar solto, em alguns momentos, aparentemente sem rumo, o diretor homenageia os ‘não-atores’ de Eu, Pierre Rivière, a região da Normandia, Allio e seu filme… e seus próprios fantasmas. Eu diria, que esse filme é, também, uma homenagem ao próprio cinema, ao se fazer cinema.
Começou, nesta sexta, mais uma edição do Festival do Rio. Mais de 300 filmes de sessenta países serão apresentados. Debates, resenhas, críticas, seminários, conversas, sugestões… inclusive a exibição pública de alguns filmes. Enfim, por 15 dias, os cariocas e agregados estão tendo a oportunidade de respirar e transpirar cinema.
Há muito que estava escutando amigos (profissionais da área de cinema e cinéfilos) falarem sobre o próximo festival. Que filmes virão? Que país será homenageado? Que celebridades estarão presentes? Estas já eram perguntas nas mentes e bocas de muitas pessoas (pelo menos de muitos de meus amigos), que agora estão tendo a chance de se acotovelar nas filas dos eventos mais badalados na esperança de conseguir uma entrada.
Tudo é festa, principalmente, se você tiver tempo e dinheiro para ver o maior número de filmes possível (dentro, claro, dos limites da sua condição de simples mortal, sem o dom da ubiquidade) e, assim, imergir na sala escura, nas rodas de discussão, workshops e seminários… Contudo, mesmo que, você seja um estudante com um orçamento limitado, ou que apesar de não ter que contar os centavos para ir ao cine, você não tenha a disponibilidade de tempo que gostaria, ainda assim, esta é uma oportunidade imperdível. Imperdível para o profissional da área, para o cinéfilo e também para o grande público, pois como se pode ficar de fora de tal evento?! Certo?
Não. Minha primeira reação ao festival foi de uma boa dose de ceticismo, em função de uma certa “obrigação” (pressão) de irmos ao festival. De repente (pelo menos em algumas rodas), não ir ao festival torna-se um pecado. Quando lhe perguntam: e aí, já viu algum filme? Diante da resposta negativa, vira e mexe, não é difícil perceber um olhar desapontado, um comentário tipo: “mas como, não?! Você não é da área?” ou “Você não se diz cinéfilo?”. Felizmente, nem todos são assim, mas isso existe. E mesmo quando não nos deparamos com uma reação negativa, ou tais perguntas, há uma cobrança interna, não apenas pois (in)conscientemente temos que dar uma certa satisfação a nossos amigos e colegas e sermos coerentes com nossa cinefilia e opção profissional, mas também pelo fato de que o evento é construído de tal modo, que não ir a ele faz com que nos sintamos de fora, deixando a vida passar.
Depois de ter resistido um pouco à ideia de ir ao festival, resolvi, pelo menos, inteirar-me do que estava acontecendo: tenho que admitir que o hype em torno dele foi arrebatador, e após ter visto os jornais, rapidamente, deixei de lado meu discurso cético, de uma visão crítica do mundo, e resolvi que seria bom mergulhar no festival como havia feito no meu último festival do Rio, há alguns anos, quando tinha muito tempo livre e um “crachá passe livre” (Bons tempos!). Infelizmente, não tenho mais nenhum desses dois, assim sendo, no momento tenho que me satisfazer com a possibilidade de ver apenas alguns filmes. Tento, então, me convencer de que é melhor assim, pois deste modo, tenho tempo para refletir sobre eles.
Quanto ao festival em si. Sem dúvida está com uma programação interessante. Já está, sim, com suas controvérsias, agora, em termos de filmes que foram ou não escolhidos. Mas não é possível mostrar todos os filmes num festival, e além do mais, festival é seleção. Diferentes festivais têm diferentes características, cada um com seu perfil. E nesse processo de construção de identidade (sem entrar na questão de qual vem primeiro a galinha ou o ovo) filmes são selecionados de acordo com ideias/gostos/agendas pessoais e dos patrocinadores. Os festivais não sobrevivem sozinhos, eles são patrocinados, e neste sentido, não podemos ignorar que há diferentes interesses em jogo nos diferentes processos do evento, inclusive na seleção.
Em relação à seleção de filmes, pela breve olhada que dei no programa, pouco vi do cinema africano. Na verdade, vi apenas um: Shirley Adam, que é uma co-produção da África do Sul e Estados Unidos. Há também um documentário (Candadense) sobre Nollywood: que ótima oportunidade para mostrar um filme de Nollywood! Mas ao que tudo indica, não há nenhuma produção dessa indústria lá. Talvez já tenham mostrado algo nos anos anteriores, mas mesmo assim, ter apenas um exemplar (co-produção) da África, parece-me lamentável.
Com essa questão do filme que não foi selecionado, resolvi pensar um pouco mais sobre o significado do festival. Não apenas como um evento que nos propicia ver filmes – que muitas vezes, não teríamos condição de ver –, linguagens, tendências de diferentes países, ou ainda pelas diferentes experiências que vivenciamos indiretamente, ou culturas sobre as quais podemos aprender um pouco (mesmo que não as entendamos, ou que as leiamos dentro de padrões de estereótipos) , mas pensar o festival também como um espaço que regulamenta, que permite certos filmes existirem (no sentido de serem vistos) e que ao selecionar (e excluir) direciona, valida tendências e linguagens e desta forma, pode conduzir nosso olhar, nosso apreciar em determinadas direções. Este assunto merece mais atenção e reflexão, não quero aqui simplificar um processo complexo tanto no caso de construção de um discurso (vários na verdade), como também nossa inserção e reprodução dele(s). O ponto que toco aqui é que seguimos tendências e nos deixamos levar por certos discursos, principalmente quando tão bem validados, como no caso do festival de cinema. E aí, penso: em que direção o meu olhar está sendo voltado para, neste festival?
Depois de ter resistido a ideia de entregar-me ao festival, de ter ficado seduzida pela sua programação, de ter ficado incomodada pela quase ausência de filmes africanos, de irritar-me e sorrir com os ‘cinefinerds’ (com suas disputas e pavoneadas de quem quem é mais Cult, quem sabe mais sobre cinema) resolvi finalmente ir ao festival. Domingo, lá estava eu. No meu manjado estilo: ‘última hora’ sem comprar ingresso. É verdade que acabo não conseguindo entrar nos filmes mais badalados, mas normalmente é possível encontrar ingressos para filmes que não são tão concorridos, e nesse sentido podemos ter boas surpresas… ou não. Além do mais, tal atitude faz parte de um dos meus discursos. Ao chegar no cinema e ver o Espaço lotado, foi um prazer… novamente eu pertencia. Todo o meu discurso cético e crítico anterior, meio que desaparecera na fila e no excitement de simplesmente estar ali. Se há algum tipo de pressão para ir ao festival, que seja! Quanto aos discursos construídos por ele? penso neles mais tarde! Se cinefinerds querem ficar disputando quem tem o verniz mais polido, que o façam e sejam felizes, se eu tivesse uma memória melhor, talvez até entrasse no jogo. E naquele prazer de estar ali vendo rostos familiares, e a curiosidade sobre o filme que ia ver, senti falta de certos amigos, um dos quais não mais está conosco. Pensei: se ele estivesse aqui, talvez agora eu estivesse numa fila para ver um filme dele, infelizmente, ele se foi antes disso ser possível. Mas naquela atmosfera positiva carregada de cinema, Giovani estava lá, comigo, na fila… no festival.
E agora, quando penso no meu encantamento todo quando estava no festival, na nostalgia do amigo há muito não mais presente, o que me levou a me lembrar do período em que eu era rato de festival, e que apesar de no final do festival, misturar as diferentes cenas dos diferentes filmes que havia visto, estava feliz, pois havia me perdido e/ou achado nos filmes, percebo, como ao começar a escrever este texto, eu estava me baseando em minhas experiências e observações de anos atrás, da época de estudante (que acredito ainda ser a experiência e visão de muitas pessoas). Daí, uma certa surpresa ingênua ao perceber, no sábado, o tanto de gente que parecia ignorar o festival, pessoas que aparentemente estavam completamente desconectadas dele. E com isso, começo a chegar à conclusão que talvez ele, o festival, fosse maior na minha cabeça e vivência do que em si mesmo. Agora, com a correria da vida, com os outros interesses que tenho, com novos conhecimentos adquiridos e (espero que um pouco mais) amadurecidos, com uma relação com o cinema diferente da que tinha há oito anos atrás, vivencio o festival de uma maneira diferente: não tão exclusiva e intensa, não tão ditatorial. Pelo visto, consegui abstrair-me de um discurso, enquanto entro em outros. E nesse processo, vejo, sinto, questiono e entrego-me. E aí, tento pensar como o cinema ainda está inserido em minha vida, e o que quero dele e com ele. Enquanto não encontro as respostas, vou flutuando entre o ficar desbundada nas filas do festival e o questionar, e nesse movimentar, vou pensando, vou assistindo, vou questionando, vou vivendo e vou sentindo… o que os filmes e festival têm para me oferecer e nutrir e dizer sobre mim, o mundo e também sobre eles mesmos.

