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Cinema

Fórmula na Caixa de Pandora?

Apesar de o festival do Rio já ter acabado há quase um mês, ainda estou digerindo alguns de seus filmes e tentando criar coragem para postar os comentários.

Quando olhava o programa do festival ou ia para a bilheteria, estava sempre torcendo para ver um filme que fosse sensível e poético, algo que me tocasse muito. Este tipo de filme, contudo, não foi a maior parte do que vi no festival, por isso, adorei ainda mais quando fechei o festival com A Caixa de Pandora. O prazer aumenta por ter parado nele por acaso, pois havia marcado de ir ao cine com uma amiga que é mais atrasilda que eu e acabamos perdendo o filme que íamos ver.

Caixa de Pandora (Yesim Ustaoglu) é uma co-produção envolvendo a Turquia, França, Alemanha e Bélgica. O filme é um melodrama sobre três irmãos que, de repente, têm que enfrentar problemas/conflitos internos quando a mãe, com Alzheimer, se muda para Istambul para ficar com eles. Basicamente, não tem nada realmente novo na estrutura da estória que segue uma estrutura tradicional: os membros de uma família (normalmente irmãos) estão vivendo suas vidinhas, com seus problemas diários (cujas raízes, muitas vezes estão no passado), quando há uma crise que quebra suas rotinas, fazendo com que eles tenham que enfrentar, repensar problemas escondidos em suas partes mais íntimas, fantasmas, cuja presença, eles tentam negar ou simplesmente, nao pensar a respeito. Normalmente a crise é causada pela doença ou morte de um parente (pais, avós, filhos), de cuja responsabilidade ele(s) não pode(m) fugir. Na tentativa de se resolver a crise, ou o doente ou os membros da família se mudam para poder cuidar, tratar do doente ou da crise em si. É nesta mudança que o lodo é chacoalhado e que a sujeira sobe. Normalmente, nessas estórias, vemos alguns dos seguintes personagens: o filho que se parece mais com um dos pais e que por isso não se dá bem com ele/ela; há o outro filho que parece ser do agrado dos pais; há o rebelde; e muitas vezes também há um membro da família que pertence a uma outra geração, mas que vai conseguir se comunicar com as pessoas em crise, ou que tem algo a ensinar, ao mesmo tempo em que aprende sobre si e sobre a vida. Como em muitos filmes, quem menos se espera, mostra-se sábio e lúcido. No meio disso tudo, os personagens começam a descobrir que as coisas não são bem como eles as pintavam e acreditavam ser, e daí eles acabam repensando suas vidas e têm a chance de mudar a si mesmos ou não.

Pandora's box - Yesim Ustaoglu

Esta é a estrutura de Caixa de Pandora, mas apesar de seguir a fórmula desse tipo de melodrama, o filme vai além de tal fórmula e é muito sensível. Ele não trata apenas das questões pessoais de cada um dos filhos, dando-lhes a chance de repensar suas próprias vidas através do que lhes é revelado, mas ele também trata da questão do mal de Alzheimer, do impacto da doença em quem a tem e na delicada questão de se retirar o idoso do seu ambiente e como isso é sentido por ele. O filme aborda a dificuldade de comunicação entre os membros da família, como nos isolamos, a distância que criamos ou que são criadas entre nós e os seres que amamos tanto, mas talvez tal distância seja nosso mecanismo de defesa na busca de nossos próprios espaços.

Há alguns aspectos do filme que merecem especial destaque. O encontro de gerações, apesar de meio clichê, é retratado de maneira bonita e tocante: os dois extremos, o novo e o velho, incompreendidos, cuja autonomia não lhes é permitida, buscam seus próprios espaços e nesta busca compreendem e aceitam um ao outro. As personagens são interessantes, principalmente a da mãe (com Alzheimer), que tanto em seus momentos de lucidez quanto de demência cutuca não apenas seus filhos, mas também o espectador.

A caixa de Pandora

Quanto ao fim do filme, sem contá-lo aqui, talvez surpreenda alguns espectadores, embora possa ser esperado por outros. Ele tem sua poesia, e nos deixa em suspenso em vários sentidos, não fechando, assim, a fórmula completamente (se bem que pode-se argumentar que, hoje em dia, isso já faz parte da fórmula).

Apesar de sugerir que A caixa de Pandora siga uma fórmula, não quero dizer que: 1) ele seja completamente enquadrado numa fórmula, e 2) que o fato de se seguir uma fórmula (ou parte dela) signifique, necessariamente, mediocridade. Yesim Ustaoglu, por exemplo, através de um ritmo um pouco mais pausado (longe de um Tarkovsky, claro); de personagens que têm profundidade com quem nos preocupamos e por quem torcemos; de paisagens lindas da Turquia; da perspectiva com que ela (Yesim Ustaoglu) trata a demência; e, finalmente, um final que não fornece uma resposta clara, mas nos dá espaço para questionar e dependendo do espectador pode até dar um nó na garganta transformam uma fórmula (ou parte dela) em algo diferente que nos toca e faz refletir, que diverte, e que comove.

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