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Cinema

Down by Law: um estranho encantamento

Vira e mexe, lembro-me de Italo Calvino, em seu livro: Por que ler os clássicos. Logo no começo do livro, ele diz algo do tipo: clássicos são aqueles livros que ouvimos dizer que se está RE-lendo. Eu diria que o uso do prefixo “re” também se aplica aos filmes… Tenho que admitir que muitas vezes, quando estou conversando com amigos e um clássico que ainda não vi é mencionado, penso comigo mesma: “Ish, não vi esse, e agora? Como confessar essa minha deficiência, falha grave…?”. Sinceramente, não acho que seja uma falha e muito menos grave, mas bate uma certa vergonha.

 

Alguns filmes e diretores entraram nesse discurso dos clássicos que temos que ver, ou melhor, “deveríamos” rever. Por que entram? Não é o que me interessa aqui, mas sim que Jim Jarmush está entre eles e seu filme Down by Law também (pelo menos para algumas pessoas que conheço). Minha proposta aqui é mais sobre minhas impressões do filme, não é uma crítica; apenas uma voz que se manifesta para exprimir o impresso. Para quem não viu Down by law, um aviso, há spoilers.

 

 

Estranho encantamento? Estranheza é sem duvida o adjetivo que não sai da cabeça. De repente, tanto tempo longe do alternativo que um formato que evidencia a artificialidade do filme e, dessa forma, lembra o espectador o tempo todo que se trata de um filme faz o distanciamento espectador x filme aumentar.

 

De onde vem o estranhamento? Acho que da combinação de uma série de elementos que fogem do feijão com arroz: fotografia, personagens, a perspectiva… Vamos começar pela perspectiva escolhida. Um filme sobre prisão em que o enfoque não está na problemática da instituição carcerária, mas no relacionamento dos companheiros de cela, na falta do que fazer, no tédio, na complexidade silenciosa dos personagens, tanto que enquanto eles estão na prisão, vemos basicamente a cela.

   

 

Não espere encontrar elementos que ecoem/rimem. Um sapato, que aparece no começo do filme, por exemplo, tem a função de ajudar na caracterização do personagem e nada mais. Habituada a uma certa “gramática” fílmica (de um tipo de filme), parece estranho nada mais ser incluído ali, espera-se pela aparição do sapato em algum outro momento do filme, mas nada (pelo menos, não na cópia que vi). É bom quando se quebra com este tipo de expectativa.

A fotografia é maravilhosa.  Um amigo sugeriu que o estranhamento aumente talvez por ser P/B. Vários, todavia, são os filmes em P/B que não causam esse estranhamento. Sem dúvida, em Down by Law, a fotografia é um dos elementos a nos lembrar o tempo todo que se trata de um filme, mas não pela opção da cor, talvez em função da combinação de seus elementos, como a iluminação, e a profundidade de algumas tomadas, juntamente, com a falta de profundidade de outras.

As personagens têm uma “profundidade achatada”, quero dizer, eles são ricos, podemos ver isso pela maneira que se relacionam com certos objetos, mas não nos é permitido entrar muito em seus universos, somos convidados até certo ponto, até o ponto onde eles mesmos conseguem ir (ou até onde eu consegui alcançar), no mais nos deparamos com o silêncio.  Os três personagens principais são tão bizarros, que se tornam artificiais, mas mesmo assim, vamos de encontro a eles e torcemos por eles. Pelo menos esta regra do roteiro foi respeitada. No silêncio deles, muito é dito. Quando Belini entra em cena, então, a coisa fica ainda mais bizarra. Numa mesma cela: um cafetão “da paz”, Jack (John Lurie) e um DJ irreverente, Zack (Tom Waits) que não para em nenhuma estação de rádio, ambos presos, vítimas de armação. Ambos parecidos, e talvez por isso, queiram tanto ir por caminhos diferentes. Depois, Roberto (Belini) se junta a eles. O italiano, uma figura ingênua, que chega como o movimento motor para quebrar a inércia em que Zack e Jack (cujos nomes Roberto sempre confunde). Este sim, preso por matar alguém, mas mata acidentalmente, quando tenta se defender. Logo que chega, Roberto desenha uma janela na parede da prisão, e posteriormente, ele é quem sugere uma fuga.

 

Durante a fuga, bate a tensão: será que vão escapar? Os guardas vão alcançá-los? Este, contudo, não é o ponto central da fuga, mas sim o buscar um caminho, tentar escapar da situação em que estavam (antes de serem presos, estavam aprisionados em suas inércias, numa espécie de queda livre). Naquele momento, estavam livres, fugitivos dos próprios destinos e perdidos, andando em círculos, mas havia, contudo, ali um movimento. Diferente do estado inicial do filme, em que estavam andando a esmo pela vida. Como dizia a frase na parede do quarto de um deles: It’s not the fall that kills, but the sudden stop, que, aliás, parece ser o tema do filme. No final, do filme, Zack e Jack, diante da encruzilhada, partem para um novo recomeço, ou quem sabe, para o retorno da queda livre.

 

O filme tem momentos doces, poesia e humor. Cenas bobas, simples, que tiram uma gargalhada do espectador, como a hora do I scream, you scream, o ridículo de um pós-briga; ou um sorriso, como por exemplo, quando Roberto desenha uma janela na parede.

Discussão

2 Respostas para “Down by Law: um estranho encantamento”

  1. Down by law merece ser incluído na lista dos clássicos do cinema. A cena do we all scream for ice cream é marcante. Já (re)vi algumas vezes e investi valiosos 12,99 para comprar um valioso DVD nas Americanas.

    Publicado por notobviouscinema | 07/09/2011, 23:17
  2. A cena do we all scream for ice cream é ótima. E consigo pensar em várias outras. Quero (re)ver este com certeza! Estou com inveja dos seus 12,99, vou passar nas Americanas amanhã, mesmo! ;)

    Publicado por Maria Eugênia Freitas | 08/09/2011, 00:41

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